Para ler e ouvir. A Volta do Malandro, por Chico Buarque.
Eis o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram nos cabarés
Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés
Deixa balançar a maré
E a poeira assentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé
Resgatando do limbo, no tapa.
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17 de fevereiro de 2011
1 de julho de 2010
Poesia de quinta
Hoje é dia do nosso aniversário! Luana só caminha faz um ano e para comemorar, a última poesia de quinta. Sim, agora a poesia vai aparecer quando quiser e não mais só às quintas. Deixamos aqui nosso presente, que não tem só humor, tem sentimento desse poeta que foi chamado de bicha, de pária, de drogado, e deixou para o mundo suas belas palavras.
Para ler, ouvindo:
Uivo para Carl Solomon, Allen Ginsberg
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato
celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente,
flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram
anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,
que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes
alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada
em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram
seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool
e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão.
Para ler, ouvindo:
Uivo para Carl Solomon, Allen Ginsberg
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato
celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente,
flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram
anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,
que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes
alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada
em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo
com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal-pintados
ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram
seus torsos noite após noite
com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool
e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão.
17 de junho de 2010
Poesia de quinta
Para ler e ouvir. Livros, por Caetano Veloso
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
Um pequeno carinho aos que tentam se encontrar no Mundo da literatura.
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
Um pequeno carinho aos que tentam se encontrar no Mundo da literatura.
3 de junho de 2010
Poesia de quinta
Para ler ouvindo: O Anjo Mais Velho, Fernando Anitelli
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar
20 de maio de 2010
Poesia de quinta
Saber Viver , Cora Coralina
Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar

Não sei... Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar
13 de maio de 2010
Poesia de quinta
Canção, Allen Ginsberg
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
6 de maio de 2010
Poesia de quinta, em homenagem
Mães judias, Luis Fernando Veríssimo
Diz que quatro mães judias se encontram no céu. Como não podia deixar de ser, a conversa toda é sobre os filhos.
- Não posso me queixar – diz a primeira. – Meu filho, até hoje, só me deu felicidade. Um santo. E na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em caridade, em virtude, em bons sentimentos.
- Seu filho é...? – pergunta a segunda.
- Jesus Cristo! – diz a primeira. E, inclinando-se para a frente, em tom confidencial e com um gesto que indica tudo em volta: - O dono disto aqui.
- Não é o pai dele?
- Bem... É da família.
- Agora, alegria, alegria, alegria, quem me dá é meu filho – diz a segunda mãe – Ach, como eu me orgulho dele. Na Terra, por sua causa, todo mundo só fala em justiça, em mudanças sociais, em solidariedade humana.
- Como é o nome dele?
- Karl. Karl Marx.
- Mmmm – fazem as outras, apertando a boca.
- O Shnuga... – suspira a mãe de Marx, lembrando o seu apelido de bebê.
- E o meu filho? – diz a terceira. – Um professor. Este sim é para uma mãe se orgulhar. Inteligeeeeeente! Um crânio. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala do Universo, na relatividade, nos buracos negros...
- Quem é ele?
- O Beto.
- Beto?
- Einstein.
- Ah.
Falta falar a quarta mãe e as outras três se viram para ela.
- Eu nem quero falar porque vocês vão ficar com inveja de mim – diz ela.
- Fala.
- Que filho!
- Quem é?
- Um doutor.
- O que foi que ele fez?
- Por causa dele, na Terra, todo mundo só fala na mãe.
E a mãe de Freud fica sorrindo, deixando-se admirar pelas outras três. Filho era aquele!
Diz que quatro mães judias se encontram no céu. Como não podia deixar de ser, a conversa toda é sobre os filhos.
- Não posso me queixar – diz a primeira. – Meu filho, até hoje, só me deu felicidade. Um santo. E na Terra, por causa dele, todo mundo só fala em caridade, em virtude, em bons sentimentos.
- Seu filho é...? – pergunta a segunda.
- Jesus Cristo! – diz a primeira. E, inclinando-se para a frente, em tom confidencial e com um gesto que indica tudo em volta: - O dono disto aqui.
- Não é o pai dele?
- Bem... É da família.
- Agora, alegria, alegria, alegria, quem me dá é meu filho – diz a segunda mãe – Ach, como eu me orgulho dele. Na Terra, por sua causa, todo mundo só fala em justiça, em mudanças sociais, em solidariedade humana.
- Como é o nome dele?
- Karl. Karl Marx.
- Mmmm – fazem as outras, apertando a boca.
- O Shnuga... – suspira a mãe de Marx, lembrando o seu apelido de bebê.
- E o meu filho? – diz a terceira. – Um professor. Este sim é para uma mãe se orgulhar. Inteligeeeeeente! Um crânio. Na Terra, por causa dele, todo mundo só fala do Universo, na relatividade, nos buracos negros...
- Quem é ele?
- O Beto.
- Beto?
- Einstein.
- Ah.
Falta falar a quarta mãe e as outras três se viram para ela.
- Eu nem quero falar porque vocês vão ficar com inveja de mim – diz ela.
- Fala.
- Que filho!
- Quem é?
- Um doutor.
- O que foi que ele fez?
- Por causa dele, na Terra, todo mundo só fala na mãe.
E a mãe de Freud fica sorrindo, deixando-se admirar pelas outras três. Filho era aquele!
29 de abril de 2010
Poesia de quinta
Primeira tarde, de Arthur Rimbaud - Tradução: Ivo Barroso
Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.
Quase desnuda, na cadeira,
Cruzavas as mãos, e os pequeninos
Pés esfregava na madeira
Do chão, libertos finos, finos.
— Eu via pálido, indeciso,
Um raiozinho em seu gazeio
Borboletear em seu sorriso
— Mosca na rosa — e no seu seio.
— Beijei-lhe então os tornozelos.
Deu ela um riso inatural
Que se esfolhou em ritornelos,
Um belo riso de cristal.
Depressa, os pés na camisola
Logo escondeu: "Queres parar!"
Primeira audácia que se implora
E o riso finge castigar!
Sinto-lhe os olhos palpitantes
Sob os meus lábios. Sem demora,
Num de seus gestos petulantes,
Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."
"Escuta aqui que vou dizer-te..."
Mas eu lhe aplico junto ao seio
Um beijo enorme, que a diverte
Fazendo-a rir agora em cheio...
— Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.
Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.
Quase desnuda, na cadeira,
Cruzavas as mãos, e os pequeninos
Pés esfregava na madeira
Do chão, libertos finos, finos.
— Eu via pálido, indeciso,
Um raiozinho em seu gazeio
Borboletear em seu sorriso
— Mosca na rosa — e no seu seio.
— Beijei-lhe então os tornozelos.
Deu ela um riso inatural
Que se esfolhou em ritornelos,
Um belo riso de cristal.
Depressa, os pés na camisola
Logo escondeu: "Queres parar!"
Primeira audácia que se implora
E o riso finge castigar!
Sinto-lhe os olhos palpitantes
Sob os meus lábios. Sem demora,
Num de seus gestos petulantes,
Volta a cabeça: "Ora, esta agora!..."
"Escuta aqui que vou dizer-te..."
Mas eu lhe aplico junto ao seio
Um beijo enorme, que a diverte
Fazendo-a rir agora em cheio...
— Era bem leve a roupa dela
E um grande ramo muito esperto
Lançava as folhas na janela
Maldosamente, perto, perto.
22 de abril de 2010
Poesia de quinta
Mark Twain, um dos maiores escritores americanos, teria feito 100 anos ontem, 21 de abril. Alguns de seus aforismos:
“O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler.”
“É melhor merecer honrarias e não recebê-las do que recebê-las sem merecer.”
“Daqui a alguns anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez. Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”
“Prefiro o paraíso pelo clima, o inferno pela companhia.”
Não conhece Mark Twain? Já para a biblioteca.
“O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler.”
“É melhor merecer honrarias e não recebê-las do que recebê-las sem merecer.”
“Daqui a alguns anos você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez. Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.”
“Prefiro o paraíso pelo clima, o inferno pela companhia.”
Não conhece Mark Twain? Já para a biblioteca.
15 de abril de 2010
Poesia de quinta
A noiva, de Dalton Trevisan em “Capitu sou eu”
- Tenho uma amiga que se matou porque o noivo lhe fez mal.
Ela sabia que à noite as flores no ambiente fechado envenenam o ar. Daí encheu o quarto com todas as flores do jardim. Trancou-se por dentro. Acendeu duas velas, uma em cada lado da cabeceira. E deitou-se na cama, de sapato branco e vestido de noiva. Com retrato dele na mão. De manhã, ao abrirem a porta, era mortinha.
- É bonito, Maria. Mas não pode ser. Ninguém morre de gás carbônico das plantas.
- Engano teu, João. Perdida de paixão, minha amiga assim acreditava. E quer mais prova? Ela morreu, não morreu?
- Ainda acho que...
- E morta ficou para sempre.
- ...foi por outra causa.
- Agora, João ingrato, me dá um beijo.
- Não um só. Dois e três.
- Se como te amo você me amasse...
- ?
- ...não duvidava que uma flor mata...
- !
- ...igual ao veneno em teu copo de vinho.
- Tenho uma amiga que se matou porque o noivo lhe fez mal.
Ela sabia que à noite as flores no ambiente fechado envenenam o ar. Daí encheu o quarto com todas as flores do jardim. Trancou-se por dentro. Acendeu duas velas, uma em cada lado da cabeceira. E deitou-se na cama, de sapato branco e vestido de noiva. Com retrato dele na mão. De manhã, ao abrirem a porta, era mortinha.
- É bonito, Maria. Mas não pode ser. Ninguém morre de gás carbônico das plantas.
- Engano teu, João. Perdida de paixão, minha amiga assim acreditava. E quer mais prova? Ela morreu, não morreu?
- Ainda acho que...
- E morta ficou para sempre.
- ...foi por outra causa.
- Agora, João ingrato, me dá um beijo.
- Não um só. Dois e três.
- Se como te amo você me amasse...
- ?
- ...não duvidava que uma flor mata...
- !
- ...igual ao veneno em teu copo de vinho.
8 de abril de 2010
Poesia de quinta
Non, je ne regrette rien, Michel Vaucaire / Charles Dumont
Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
está pago, varrido, esquecido
eu me lixo para o passado
com minhas recordações
eu acendi o fogo
minhas aflições, meus prazeres
eu não preciso mais deles
varridos meus amores
com seus tremores
varridos para sempre
Eu recomeço do zero
Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
porque minha vida, minhas alegrias
hoje começam com você
Porque hoje estou romântico!
Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
está pago, varrido, esquecido
eu me lixo para o passado
com minhas recordações
eu acendi o fogo
minhas aflições, meus prazeres
eu não preciso mais deles
varridos meus amores
com seus tremores
varridos para sempre
Eu recomeço do zero
Não, Eu Não Lamento Nada
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
nem o bem que me fez
nem a dor, tudo isso me é indiferente
não, nada de nada
não, eu não lamento nada
porque minha vida, minhas alegrias
hoje começam com você
Porque hoje estou romântico!
25 de março de 2010
Poesia de quinta
29, Renato Russo
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)
Nossa homenagem ao poeta, que faria 50 anos neste sábado, dia 27.
Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)
Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.
Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)
Nossa homenagem ao poeta, que faria 50 anos neste sábado, dia 27.
18 de março de 2010
Poesia de quinta

Bem no fundo, Paulo Leminski
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
11 de março de 2010
Poesia de quinta
Quando eu morrer, Mario de Andrade
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
4 de março de 2010
Poesia de quinta
Antecipando o Dia Internacional da Mulher, nossa homenagem

Os Teus Pés (Pablo Neruda)
Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram vôo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.

Os Teus Pés (Pablo Neruda)
Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram vôo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
25 de fevereiro de 2010
Poesia de quinta
Trecho de “Os verões da grande leitoa branca”, Jamil Snege
“Minha sogra é uma dessas mulheres que saltam sobre a menopausa e continuam a menstruar aos 50. Odeio minha sogra. Odeio o médico de bosta que criou esse prodígio de ovulação perpétua, abelha-rainha loira e coxuda. Todos nós – genros, filhas, filho, marido e netos – gravitamos em torno desse ovário infatigável, palreante, onipresente. Ela faz as tortas, o pudim de avelãs, o salpicão de frango, os sucos de graviola, o mingau das crianças, a caipirinha do aperitivo. Está sempre a balançar os seios, chupitando molhos, cruzando as pernas, chuchando os dedos, empinando a bunda, mamujando a calda dos pudins. (...)
Sempre anuncia quando vai fazer xixi, tomar uma ducha porque está toda suada, por um vestidinho mais leve que a vontade mesmo era ficar nua com esse calorão danado. E dá-lhe perna, e dá-lhe coxa, e dá-lhe farta fricção de peitos, e dá-lhe esfregação de bunda quando, toda afogueada, traz à mesa o enorme pernil de porco que acaba de tirar do forno. Odeio minha sogra. Odeio o cheiro de seu sabonete, da colônia que ela borrifa no profundo rego de seus seios.”
“Minha sogra é uma dessas mulheres que saltam sobre a menopausa e continuam a menstruar aos 50. Odeio minha sogra. Odeio o médico de bosta que criou esse prodígio de ovulação perpétua, abelha-rainha loira e coxuda. Todos nós – genros, filhas, filho, marido e netos – gravitamos em torno desse ovário infatigável, palreante, onipresente. Ela faz as tortas, o pudim de avelãs, o salpicão de frango, os sucos de graviola, o mingau das crianças, a caipirinha do aperitivo. Está sempre a balançar os seios, chupitando molhos, cruzando as pernas, chuchando os dedos, empinando a bunda, mamujando a calda dos pudins. (...)
Sempre anuncia quando vai fazer xixi, tomar uma ducha porque está toda suada, por um vestidinho mais leve que a vontade mesmo era ficar nua com esse calorão danado. E dá-lhe perna, e dá-lhe coxa, e dá-lhe farta fricção de peitos, e dá-lhe esfregação de bunda quando, toda afogueada, traz à mesa o enorme pernil de porco que acaba de tirar do forno. Odeio minha sogra. Odeio o cheiro de seu sabonete, da colônia que ela borrifa no profundo rego de seus seios.”
18 de fevereiro de 2010
Poesia de quinta
Eu peço ao vento
de Nuno Ramos, em O pão do corvo.
O leão
Eu peço ao vento que leve o meu cheiro. Vá. Peço ao vá. Antes que meu sangue seque. As narinas dela vão se abrir. Primeiro a cócega no focinho, depois o espanto. Ela vai reconhecer meu cheiro, vai se lembrar. Vai abrir suas narinas no alto de algum montículo nesta terra plana. Ela gosta de lugares altos. A brisa vai percorrer a sua juba espessa, depois abrir suas narinas. Eu peço ao vento que leve meu cheiro antes que o sangue seque. Antes que eu perca o medo. Antes que alguma ave me descubra. Meu pêlo já está todo encharcado e vermelho. Como foi que me feri? Foi a ponta de uma pedra. Ela vai isolar o meu cheiro no meio de tantos cheiros lá no alto daquele montículo. Vocês não sabem como ela é. É uma leoa das grandes. Tem uma patada muito forte. A zebra que ela alcança morre antes de tombar no chão. O capim onde ela dorme acorda molhado de suor. Qualquer chão é a palha dela. Qualquer animal é o seu alimento. Ela vai saber que o sangue é meu. Vá. A minha carne fica aqui mas o meu cheiro voa. Eu peço ao voa. Leva o meu cheiro até as narinas da minha leoa. Ela vai ouvir meu cheiro como a uma voz. Vai ver meu cheiro como um ponteiro fixo. As folhas debaixo de mim estão vermelhas. Os insetos pequenos bebem ali. Eu peço ao vento. Traga pra mim a minha leoa. Traga a minha leoa pra mim agora.
A leoa
Eu não saberia cuidar dele, mesmo que chegasse a tempo. Eu peço ao vento que leve meu uivo de volta. Como um chacal, como uma hiena, saúdo a savana oca, a estepe plana e a lua longe pela morte de um amigo.
de Nuno Ramos, em O pão do corvo.
O leão
Eu peço ao vento que leve o meu cheiro. Vá. Peço ao vá. Antes que meu sangue seque. As narinas dela vão se abrir. Primeiro a cócega no focinho, depois o espanto. Ela vai reconhecer meu cheiro, vai se lembrar. Vai abrir suas narinas no alto de algum montículo nesta terra plana. Ela gosta de lugares altos. A brisa vai percorrer a sua juba espessa, depois abrir suas narinas. Eu peço ao vento que leve meu cheiro antes que o sangue seque. Antes que eu perca o medo. Antes que alguma ave me descubra. Meu pêlo já está todo encharcado e vermelho. Como foi que me feri? Foi a ponta de uma pedra. Ela vai isolar o meu cheiro no meio de tantos cheiros lá no alto daquele montículo. Vocês não sabem como ela é. É uma leoa das grandes. Tem uma patada muito forte. A zebra que ela alcança morre antes de tombar no chão. O capim onde ela dorme acorda molhado de suor. Qualquer chão é a palha dela. Qualquer animal é o seu alimento. Ela vai saber que o sangue é meu. Vá. A minha carne fica aqui mas o meu cheiro voa. Eu peço ao voa. Leva o meu cheiro até as narinas da minha leoa. Ela vai ouvir meu cheiro como a uma voz. Vai ver meu cheiro como um ponteiro fixo. As folhas debaixo de mim estão vermelhas. Os insetos pequenos bebem ali. Eu peço ao vento. Traga pra mim a minha leoa. Traga a minha leoa pra mim agora.
A leoa
Eu não saberia cuidar dele, mesmo que chegasse a tempo. Eu peço ao vento que leve meu uivo de volta. Como um chacal, como uma hiena, saúdo a savana oca, a estepe plana e a lua longe pela morte de um amigo.
11 de fevereiro de 2010
Poesia de quinta
Trecho de “Desonra”, J M Coetzee
“Para um homem da sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até o Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, beija-lhe os seios, fazem amor.
Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá para ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté.”
“Para um homem da sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até o Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, beija-lhe os seios, fazem amor.
Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá para ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté.”
4 de fevereiro de 2010
Poesia de quinta, em homenagem

Trecho de “Pra cima com a viga, moçada!”, J D Salinger
“Mas o que acho que mais comumente se ouve, pelo menos nestes tempos, sobre o curiosamente-produtivo-porém-doente poeta ou pintor, é que ele é, invariavelmente, uma espécie de superdotado mas também sem dúvida alguma um neurótico “clássico”, uma aberração que só de vez em quando, e nunca em grandes oportunidades, quer se ver livre de sua aberração; ou, em linguagem clara, um louco que não raramente, embora digam que ele infantilmente o nega, dá gritos terríveis de dor, como se todo o coração deixasse escapar ambas, a sua arte e a sua alma, só para experimentar o que em pessoas normais passa por bem-estar, e ainda (pelo que se diz) quando o seu pequeno quarto é invadido e alguém – frquentemente, nestes casos, alguém que o ama – lhe indaga apaixonadamente onde é a dor, ele ou declina ou parece incapaz de discuti-la em qualquer nível clinicamente construtivo e, de manhã, quando até os grandes pintores e poetas sentem-se presumivelmente mais leves do que o normal, ele está mais do que nunca perversamente determinado a deixar que o mal siga seu curso.”
“Mas o que acho que mais comumente se ouve, pelo menos nestes tempos, sobre o curiosamente-produtivo-porém-doente poeta ou pintor, é que ele é, invariavelmente, uma espécie de superdotado mas também sem dúvida alguma um neurótico “clássico”, uma aberração que só de vez em quando, e nunca em grandes oportunidades, quer se ver livre de sua aberração; ou, em linguagem clara, um louco que não raramente, embora digam que ele infantilmente o nega, dá gritos terríveis de dor, como se todo o coração deixasse escapar ambas, a sua arte e a sua alma, só para experimentar o que em pessoas normais passa por bem-estar, e ainda (pelo que se diz) quando o seu pequeno quarto é invadido e alguém – frquentemente, nestes casos, alguém que o ama – lhe indaga apaixonadamente onde é a dor, ele ou declina ou parece incapaz de discuti-la em qualquer nível clinicamente construtivo e, de manhã, quando até os grandes pintores e poetas sentem-se presumivelmente mais leves do que o normal, ele está mais do que nunca perversamente determinado a deixar que o mal siga seu curso.”
28 de janeiro de 2010
Poesia de quinta

A Flor e a Náusea, Carlos Drummond de Andrade
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
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